Agrupamento não supervisionado de documentos

Por que agrupar documentos?

Nem toda pesquisa começa com um livro de códigos pronto. Às vezes você tem centenas de discursos, proposições ou entrevistas e precisa descobrir tipologias latentes — antes de rotular, antes de contar, antes de qualquer LLM. É aí que entra o clustering: um algoritmo lê a matriz de vocabulário e devolve uma etiqueta por documento, agrupando o que se parece por co-ocorrência de termos.

1. Três famílias, três leituras teóricas

Antes de rodar qualquer código, vale entender que “descobrir grupos em texto” é uma família de técnicas com três leituras teóricas diferentes, cada uma respondendo a uma pergunta distinta:

1.1 Hard clustering (o que esta vignette faz)

Cada documento pertence a um único grupo. A saída é uma etiqueta cluster ∈ {1, 2, …, k}. É o mundo do ac_cluster_documents(): hierárquico (hclust), kmeans e pam.

1.2 Soft (fuzzy) clustering

Cada documento tem um vetor de graus de pertencimento que soma 1 entre k clusters. Um documento “60% tipo A, 40% tipo B” existe. Fuzzy c-means (e1071::cmeans()) e misturas gaussianas (mclust) são os exemplos clássicos.

1.3 Modelos de tópicos (LDA)

Cada documento é uma mistura probabilística de tópicos, e cada tópico é uma distribuição sobre palavras. É o mundo do ac_lda(): o output é uma matriz γ (gamma) de probabilidades documento × tópico e uma matriz β (beta) de probabilidades tópico × palavra.

1.4 Como escolher?

Se você quer… Use
Uma partição limpa, uma etiqueta por documento Hard clustering (esta vignette)
Detectar documentos fronteiriços, quão típico de um grupo cada é Soft clustering (fuzzy c-means)
Descobrir temas que se misturam em cada texto LDA (veja vignette("lda"))
Rotular documentos com categorias pré-definidas por um pesquisador LLM (veja vignette("qualitativo-llm"))

Um bom pipeline muitas vezes combina essas técnicas: hard clustering para triagem inicial, LDA para entender temas dentro de cada grupo, LLM para codificar categorias teoricamente motivadas, revisão humana nos documentos que caírem em fronteiras.

2. Um corpus de dois blocos

Para tornar o exemplo transparente, vamos construir um corpus com dois blocos temáticos deliberadamente separados: democracia participativa de um lado, economia de mercado do outro. O clustering deve, sem supervisão, reencontrar essa divisão.

df <- data.frame(
  id = paste0("d", sprintf("%02d", 1:16)),
  tema_real = rep(c("democracia", "mercado"), each = 8),
  texto = c(
    "democracia participacao voto liberdade cidadania popular",
    "cidadania direitos participacao democracia representacao politica",
    "voto direitos liberdade cidadania soberania popular",
    "democracia voto participacao popular assembleia direta",
    "participacao social democracia direitos coletivos comunidade",
    "cidadania voto democracia representacao plural minorias",
    "liberdade participacao politica assembleia popular deliberacao",
    "democracia direta cidadania voto plebiscito referendo",
    "mercado economia eficiencia privatizacao competicao livre",
    "privatizacao mercado livre eficiencia produtividade lucro",
    "economia crescimento investimento mercado capital juros",
    "eficiencia mercado economia livre concorrencia produtividade",
    "mercado privado investimento economia lucro capital risco",
    "economia livre mercado eficiencia produtividade escala",
    "crescimento economico mercado investimento privatizacao abertura",
    "mercado competicao eficiencia lucro capital privado"
  ),
  stringsAsFactors = FALSE
)

corpus <- ac_corpus(df, text = texto, docid = id)
corpus
#> # A tibble: 16 × 3
#>   doc_id text                                                          tema_real
#>   <chr>  <chr>                                                         <chr>    
#> 1 d01    democracia participacao voto liberdade cidadania popular      democrac…
#> 2 d02    cidadania direitos participacao democracia representacao pol… democrac…
#> 3 d03    voto direitos liberdade cidadania soberania popular           democrac…
#> 4 d04    democracia voto participacao popular assembleia direta        democrac…
#> 5 d05    participacao social democracia direitos coletivos comunidade  democrac…
#> 6 d06    cidadania voto democracia representacao plural minorias       democrac…
#> # ℹ 10 more rows

Guardei tema_real fora do corpus para poder validar depois: o clustering não vê essa coluna; só o texto.

3. Ajuste em três linhas

clust <- ac_cluster_documents(corpus)
clust
#> 
#> Documentos por cluster:
#> 
#> 1 2 3 
#> 8 4 4

Os padrões cobrem 80% dos casos:

4. Seis formas de olhar para o mesmo cluster

4.1 Dendrograma — a árvore das fusões

Mostra a ordem em que documentos foram unidos e a altura de cada fusão. Cortes altos separam grupos sólidos; cortes baixos indicam agrupamentos frouxos.

ac_plot_cluster(clust, kind = "dendrogram")

4.2 Projeção PCA — a geometria do corpus

Cada documento vira um ponto no plano das duas componentes principais. Documentos com vocabulário parecido ficam próximos; a cor mostra a divisão do algoritmo.

ac_plot_cluster(clust, kind = "scatter")

4.3 Mapa de calor — a assinatura da separação

Ordena os documentos pelo dendrograma e desenha a matriz de dissimilaridade inteira. Blocos escuros na diagonal são o carimbo de qualidade de um clustering bem-sucedido.

ac_plot_cluster(clust, kind = "heatmap")

4.4 Termos mais distintivos por cluster

Este gráfico responde à pergunta que interessa depois de rodar o modelo: “o que cada grupo fala de diferente?”. Juntamos a etiqueta do cluster ao TF-IDF e mostramos os 8 termos mais fortes por grupo.

tokens_com_cluster <- corpus |>
  ac_clean() |>
  ac_count() |>
  left_join(clust$assignments, by = "doc_id") |>
  group_by(cluster, token) |>
  summarise(n = sum(n), .groups = "drop") |>
  rename(doc_id = cluster) |>
  mutate(doc_id = paste0("Cluster ", doc_id))

tfidf_cluster <- ac_tf_idf(tokens_com_cluster)

top_por_cluster <- tfidf_cluster |>
  group_by(doc_id) |>
  slice_max(tf_idf, n = 8) |>
  ungroup() |>
  mutate(token = tidytext::reorder_within(token, tf_idf, doc_id))

ggplot(top_por_cluster, aes(tf_idf, token, fill = doc_id)) +
  geom_col(show.legend = FALSE) +
  tidytext::scale_y_reordered() +
  facet_wrap(~ doc_id, scales = "free") +
  scale_fill_manual(values = ac_palette(clust$k)) +
  labs(
    title    = "Termos mais distintivos por cluster (TF-IDF)",
    subtitle = "O 'o que cada grupo fala de diferente'",
    x = "TF-IDF", y = NULL,
    caption = "acR • pos-clustering"
  ) +
  theme_ac()

4.5 Curva de silhueta — escolhendo k visualmente

Quando o k automático parecer arbitrário, olhe para a curva. A silhueta média de cada k diz o quão coeso é o agrupamento naquele número de grupos. Picos claros são bons; platôs indicam que a divisão seguinte é quase tão boa quanto.

if (requireNamespace("cluster", quietly = TRUE)) {
  ks   <- 2:6
  sils <- vapply(ks, function(k_try) {
    ac_cluster_documents(corpus, k = k_try)$silhouette
  }, numeric(1))

  df_sil <- data.frame(k = ks, silhueta = sils)

  ggplot(df_sil, aes(k, silhueta)) +
    geom_line(color = ac_palette(1), linewidth = 1.1) +
    geom_point(size = 3.5, color = ac_palette(1)) +
    geom_point(
      data = df_sil[which.max(df_sil$silhueta), ],
      aes(k, silhueta),
      size = 6, shape = 21, stroke = 1.4,
      fill = "white", color = ac_palette(1)
    ) +
    scale_x_continuous(breaks = ks) +
    labs(
      title    = "Silhueta media por numero de grupos",
      subtitle = "Circulo vazado = k escolhido automaticamente",
      x = "k (numero de clusters)", y = "Silhueta media"
    ) +
    theme_ac()
}

4.6 Hard vs. soft — comparando com LDA

Este é o gráfico mais didático da vignette: mostra lado a lado como hard clustering e LDA veem o mesmo corpus. À esquerda, cada linha do heatmap é um documento e cada coluna, o cluster ao qual ele pertence (binário: 0 ou 1). À direita, cada linha é o mesmo documento e cada coluna é a proporção γ do tópico LDA — um gradiente contínuo.

lda_fit <- ac_lda(corpus, k = 2, seed = 42)

hard <- clust$assignments |>
  mutate(valor = 1, tipo = paste0("Cluster ", cluster)) |>
  select(doc_id, tipo, valor)

soft <- lda_fit$documents |>
  mutate(tipo = paste0("Topico ", topic), valor = gamma) |>
  select(doc_id, tipo, valor)

plot_df <- bind_rows(
  hard |> mutate(painel = "Hard clustering\n(1 = pertence)"),
  soft |> mutate(painel = "LDA (soft)\n(gamma = proporcao)")
) |>
  mutate(doc_id = factor(doc_id, levels = rev(sort(unique(doc_id)))))

ggplot(plot_df, aes(tipo, doc_id, fill = valor)) +
  geom_tile(color = "white") +
  facet_wrap(~ painel, scales = "free_x") +
  scale_fill_gradient(low = "#F1F5F9", high = ac_palette(1), name = "Valor") +
  labs(
    title    = "Hard vs. soft: a mesma pergunta, duas respostas",
    subtitle = "Cluster da uma etiqueta; LDA da proporcoes por documento",
    x = NULL, y = NULL,
    caption = "acR • ac_cluster_documents vs. ac_lda"
  ) +
  theme_ac() +
  theme(axis.text.x = element_text(angle = 30, hjust = 1))

Note como o hard clustering sempre pinta uma célula por linha (o documento é do grupo A ou do grupo B), enquanto o LDA distribui massa — a maior parte dos documentos é ~90% de um tópico, mas alguns ficam repartidos. É a mesma tipologia latente, expressa em duas métricas diferentes.

5. Validando contra a verdade

Como guardamos tema_real fora do modelo, dá para conferir a acurácia da partição:

validacao <- clust$assignments |>
  mutate(tema_real = df$tema_real[match(doc_id, df$id)]) |>
  count(tema_real, cluster)
validacao
#> # A tibble: 3 × 3
#>   tema_real  cluster     n
#>   <chr>        <int> <int>
#> 1 democracia       1     8
#> 2 mercado          2     4
#> 3 mercado          3     4

Se o algoritmo separou corretamente, cada tema_real deve concentrar-se num único cluster (permutação de rótulos é esperada — o clustering não sabe qual grupo é “democracia” ou “mercado”, só que são diferentes).

6. Escolhendo o método

ac_cluster_documents() aceita três algoritmos:

Método Quando usar
hclust Padrão. Você quer dendrograma, ou não sabe k de antemão.
kmeans Corpus grande (milhares de documentos), você já sabe k, quer rapidez.
pam Robusto a outliers; devolve medoides reais (documentos exemplares).

pam requer o pacote cluster instalado; os demais rodam com apenas o stats base.

clust_km <- ac_cluster_documents(corpus, method = "kmeans", k = 2)
ac_plot_cluster(clust_km, kind = "scatter")

7. E depois? Integrando com o pipeline

Fluxo típico onde clustering é etapa prévia:

  1. ac_cluster_documents() particiona o corpus em k grupos.
  2. Amostre n documentos por cluster para leitura humana.
  3. Use as leituras para escrever um codebook inicial com ac_qual_codebook().
  4. Aplique o codebook ao corpus inteiro com ac_qual_code().
  5. Se quiser refinar temas dentro de um cluster, rode ac_lda() só naquele subcorpus.

Isso reduz o custo cognitivo do primeiro contato com o corpus: em vez de enfrentar centenas de documentos aleatórios, você lê um punhado de exemplares de cada tipologia latente.

Referências